Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Portinari...

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A paisagem onde a gente brincou pela primeira vez
não sai mais da gente.
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Candido Portinari
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Quinta-feira, Novembro 05, 2009

O leitor e o livro...

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Quarta-feira, Novembro 04, 2009

O apanhador de desperdícios

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Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios
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.Manoel de Barros

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Segunda-feira, Novembro 02, 2009

La carencia

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Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.
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Alejandra Pizarnik
( De Las Aventuras Perdidas )
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Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

ta_manco

Sandra Freij
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qual verso escreverei e com que rimas
e mágoa e dor iguais pisam por cima
se o sonho não resiste e a bailarina
quebrou o pé
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Terça-feira, Outubro 27, 2009

O lutador

A luta de Jacó com o anjo -Alexander Louis Leloir, 1865

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Lutar com palavras

é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como um javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito foge
me não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
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Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssima
se viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
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Palavra, palavra

(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
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Luto corpo a corpo,

luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
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Iludo-me às vezes,

pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entre
abrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
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O ciclo do dia

ora se conclui e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.
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Carlos Drummond de Andrade - Nova Reunião, p. 94-97

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

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Nossa existência é tão fugaz que, se não escrevermos à noite o que aconteceu pela manhã, o trabalho nos atordoa e não nos sobra tempo para registrá-lo. Isto não impede que lancemos ao vento as horas que são para o homem as sementes da eternidade.

Chateaubriand, Mémoires d'outre-tombe
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Sexta-feira, Outubro 23, 2009

A canção do tédio

Toni Frissell

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Anda uma estrela pelo céu,

sozinha, arrastando um véu

de viúva.

- É a chuva.

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Rola um soluço leve no ar,

bem longo no seu rolar,

bem lento.

- É o vento.

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Perpassa o passo oco de algum

fantasma, quieto como um

segredo.

- É o medo.

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Batem à porta. Abro. Quem é?

Uma alta sombra, de pé,

se eleva.

- É a treva.

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Mas, desde então, alguém está

comigo. É inútil. Não há

remédio.

- É o tédio.

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Guilherme de Almeida

O leitor e o livro...

Toko Ohmori

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Procura da poesia

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Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
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Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
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Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
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O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
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Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
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Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
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Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
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Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
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Repara:

ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
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Carlos Drummond de Andrade – p. 111 e 112 - Nova Reunião: 19 livros de poesia - Editora José Olympio

Terça-feira, Outubro 20, 2009

(ESCRE)VER-ME

Lavinia Fontana
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nunca escrevi
sou
apenas o tradutor de silêncios

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a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

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sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

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Mia Couto

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